A POESIA BRASILEIRA NA ERA PÓS-VERSO: UMA EXPOSIÇÃO
Mostra de Poesia Intersemiótica do IA-UNESP
Curadoria e coordenação geral: Prof. Omar Khouri
De 01 a 22 de junho de 2011.
Abertura: 01 de junho de 2011 . 19h. Confira aqui fotos da vernissage!
Visitas de 02 a 22 de junho . de 2ª a 6ª, das 9 às 17h30 . sábado, das 9 às 12h . Às quintas-feiras: visitas monitoradas (marcar pelo tel. 3393-8678)
IA-UNESP: Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz 271 Barra Funda São Paulo (ao lado do Terminal Rodoviário)

Poetas participantes:
Aldo Fortes . André Vallias . Arnaldo Antunes. Erthos Albino de Souza . Gastão Debreix . Gil Jorge . João Bandeira . Júlio Mendonça . Lenora de Barros . Lúcio Agra . Omar Khouri . Paulo Miranda . Renato Ghiotto . Sonia Fontanezi . Tadeu Jungle . Villari Herrmann . Walter Silveira . Zéluiz Valero

Agradecimentos: Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, Paulo Miranda, Peter de Brito, Sonia Fontanezi

Equipe de realização: Bárbara Richter, Carmen Garcia, Carolina Daffara, Daniele Desierrê, Gustavo Brognara, Omar Khouri, Vanderlei Lopes, Viviane Tabach

     

A POESIA BRASILEIRA NA ERA PÓS-VERSO: uma EXPOSIÇÃO

A presente mostra que acontece no Instituto de Artes da UNESP não é a primeira que esta curadoria promove, mas a décima-quarta, sendo que duas outras aconteceram nesta mesma instituição, quando se sediava no campus do Ipiranga – da primeira vez, instigada pela Professora Samira Chalhub e doutra, integrada à Semana de Artes do IA. Esta, agora, além de trazer outros poemas – afora os já expostos nas várias mostras, já que se tornaram verdadeiros clássicos da Poesia Intersemiótica - preocupa-se com originais, protótipos, provas de impressão e primeiras edições, trazendo, portanto, todo um material bastante valioso sob os pontos-de-vista artístico e histórico-documental. Apenas poemas feitos artesanalmente ou impressos – da tipografia ao offset, passando pela serigrafia e tendo como principal suporte – não o único – o papel. Outras mídias – rotineiras para muitos dos poetas - ficarão para outras ocasiões. Dos 18 poetas constantes desta mostra (Aldo Fortes, André Vallias, Arnaldo Antunes, Erthos Albino de Souza, Gastão Debreix, Gil Jorge, João Bandeira, Júlio Mendonça, Lenora de Barros, Lúcio Agra, Omar Khouri, Paulo Miranda, Renato Ghiotto, Sonia Fontanezi, Tadeu Jungle, Villari Herrmann, Walter Silveira e Zéluiz Valero) poucos frequentam as mídias, o que vale dizer que, apesar do empenho com as questões que envolvem a linguagem, durante quase quatro décadas, alguns ainda são completamente desconhecidos do grande público.

Numa tentativa de delimitar ou insinuar terreno, serão aqui enumeradas algumas das características dos poetas que operaram e operam nesse universo intersemiótico, o que os distingue da massa de poetas, todos com suas razões de ser - há público, por menor que seja, para tudo e todos, e as coisas, se existem, deverão possuir uma justificativa plausível – o que os faz produtores-de-linguagem especiais. Em inúmeros outros escritos deste curador-poeta poderão ser encontradas as características apontadas. Porém, aqui, tudo está mais claro e completo, acrescido de características observadas outras, propiciadas pela passagem do tempo: a distância que torna claras as coisas.

São poetas que valorizam as visualidades todas, assim como as técnicas que as possibilitam, porém, têm uma grande familiaridade com o verbal em estado de poesia, inclusive dominando o métier do versejador. Têm domínio desse artesanato, cujo aprendizado é fruto de longo processo, coisa de autodidatas. Mesmo não acreditando mais no verso tradicional – o verso, se feito, deve extrapolar os limites do livro, explodindo em vociferações ensurdecedoras, em luminosos, outdoors… É importante não esquecer que os artistas que mais revolucionaram as linguagens eram os que maior conhecimento possuíam da tradição, a ponto de poderem romper com a mesma. Os concretistas, que parece terem sido os primeiros poetas a romper com o verso, por escrito: "dando por encerrado o ciclo histórico do verso" (Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari: Plano-piloto para poesia concreta. 1958) eram exímios versemakers e nunca perderam essa tecnologia, nem que fosse no exercício da tradução criativa - transcriação, como colocou Haroldo de Campos – pois, poemas originais em versos teriam que resultar em bons versos em português. A lição da beleza do verbal jamais foi desprezada pelos poetas que constam da amostragem aqui apresentada. Muitos haviam começado como versejadores.

Pensam ser importante que não se percam antigas tecnologias, a exemplo da tipografia, como a praticada à época de Gutenberg, século XV, que dota o manipulador de programas gráficos, no computador, de uma sabedoria, uma consciência maior e mais precisa desse afazer.

A prática do artesanato das chamadas Artes Plásticas, dada a própria necessidade na execução dos poemas: o desenho da letra, a aplicação da letraset, a fotocomposição, o novo artesanato propiciado pelo computador - "os novos escribas" (A. Risério 1998). O uso da cor, o desenho, a colagem, a fotografia - do registro à prática laboratorial do processo fotoquímico, à fotografia digital - o vídeo e a operação com a câmera, a edição. Isto tudo não impede ao autor da idéia delegar tarefas a outrem ou trabalhar em colaboração. Uma das práticas tentadas e levadas a efeito foi a da serigrafia, primeiro como meio de viabilizar economicamente a impressão de trabalhos e, quase que ao mesmo tempo, pela beleza do resultado-cor e pela dimensão tátil emprestada aos trabalhos – isto, principalmente os poetas ligados à Nomuque Edições, que chegaram a produzir revistas inteiras em serigrafia, como foi a caso de ARTÉRIA 6 (31 X 31) QUADRADÃO, a revista de mais longa gestação na história da cultura brasileira.

A abertura para as tecnologias de ponta dos vários momentos, sabendo que não basta dispor de tecnologias tais e tais. É preciso que se as pense enquanto linguagens e que se tenham idéias. O computador possibilitou um trabalho de artefinal muitíssimo rápido e perfeito, porém, antes de tudo é preciso ter-se a idéia. Do videotexto aos computares de última geração disponíveis, usa-se a ferramenta adequada, que poderá ser simples pedaço de carvão e uma parede clara. Ou um aparato tecnológico digno da NASA.

A produção pouca, tendo o claro objetivo de não redundar, foi radicalizada ao extremo por alguns dos poetas que, em cerca de quarenta anos, não chegaram a produzir 20 poemas. Outros também produziram pouco, mas nem tanto. Outros, ainda, publicaram muito pouco. Diferentemente do que falou João Cabral de Melo Neto em seu O ARTISTA INCONFESSÁVEL (J. Cabral. 1976), Paulo Miranda dizia que o difícil mesmo é não-fazer e lançava a bomba: "Sempre que tenho a chance de não fazer, não a perco!" Nisto, foram até bem mais longe que os concretistas históricos que, via de regra, possuíam produção pouca, se comparada à média do que produziam os poetas no Brasil e em outros países.

Uma preferência pela veiculação em publicações coletivas, que eram chamadas de revistas, mas que, em verdade, eram mais antologias, o que trazia invariavelmente grande alegria e, por outro lado, havia a publicação autônoma de poemas (e isto não era exclusividade desses poetas, mas de toda uma época), o que emprestava à coisa uma certa precariedade, sendo a distribuição quase sempre de-mão-em-mão, o que dificultava a divulgação e inclusive o armazenamento das peças: o terror de toda bibliotecária.

O grande interesse pelas muitas artes, incluindo as épocas várias, o que exigiu uma certa erudição por parte dos poetas desta vertente. Muita familiaridade com as várias artes: pintura, música, arquitetura, cinema etc, assuntos que sempre foram discutidos com grande empenho e rigor, como no caso da poesia. Se os parâmetros eram elevados para a poesia, se-lo-iam também para as demais artes. Os Inventores e Mestres (Pound) eram rastreados em todas as áreas: Mondrian, Duchamp, Flaubert, Joyce, Proust, Mies van der Rohe, Schoenberg, Picasso, Cummings, Welles, Godard… Outrossim, Paideumas eram pensados também para todas as áreas.

No rastro de Edgar Allan Poe e Décio Pignatari, cogitava-se das relações entre as Artes e a Ciência – o que remete a Leonardo da Vinci – tentando entender o que haveria de comum entre esses tipos de criação/descoberta. Não foi por acaso que jovens cientistas integravam os grupos de poetas (na verdade um, só que, de quando em quando, se bipartia). Eram principalmente físicos, como Roland de Azeredo Campos e Renato Ghiotto. Não se via qualquer incompatibilidade entre as duas grandes áreas, que, no senso comum, eram vistas como antagônicas. Da mesma forma com que Pound colocava os artistas como as antenas da raça (a Espécie Humana), os cientistas também podiam ser considerados antenas, por captarem, como os artistas, antes da maioria.

Praticamente, toda a metalinguagem - no que diz respeito a plataformas-de-ação - era feita oralmente em reuniões em bares, restaurantes e algumas residências e eram quase sempre acaloradas. Era uma época, os anos 70, em que não faziam mais sentido os manifestos, como os das vanguardas históricas, porém havia uma certeza entre os poetas dessa estirpe: a de que estavam fazendo a poesia mais significativa do Brasil e havia como que uma menosprezo com relação aos que possuíam um outro tipo de produção - de linha mais verbalista, diga-se, ou com um menor rigor na utilização de materiais poéticos. Porém, o que era discutido em termos de poesia o era seriamente. O que se almejava estava acima da excelência, já que as exigências para ser poeta eram muitas. Cobrava-se muito de si mesmo e dos outros.

A intersemioticidade, que é, em verdade, o encontro de sistemas vários de signos, e o caráter intermídia dos poemas, no sentido de um trânsito nas várias mídias sem perda da informação estética, sendo que poemas já eram assim pensados. Havia a perseguição de uma verdadeira fusão de códigos, mais que uma superposição ou justaposição dos mesmos.

Não se cuidou de demarcações de limites nem de território a ser ocupado. A certeza de se estar fazendo trabalho de alta qualidade jamais colocava em questão o ser-se poeta, embora ninguém estivesse interessado em disputar o título. Outrossim, não se cuidou da divulgação da própria obra (é óbvio que há exceções), diferentemente do que faz a maioria dos que poetam, bem porque Poesia não é algo que se remunere. As sociedades têm louvado até em excesso os seus poetas, principalmente depois de mortos. Não se procurou nem se disputou um espaço nas mídias: via de regra, não se cuidou da divulgação do próprio trabalho. Poetas, como Villari Herrmann, Paulo Miranda e Aldo Fortes, algumas vezes, foram publicados à revelia. Tudo é menos que a própria obra, pensavam.

Esta mostra intenta contribuir para uma maior divulgação desse tipo de poesia que, em boa parte, recusa os modos tradicionalmente aceitos, constituindo-se numa proposta nova e com muito, ainda, a ser explorado no campo das linguagens. Omar Khouri . São Paulo . Abril 2011

FONTES
KHOURI, Omar (2007). Ver Ouvir Pensar a Poesia. São Paulo, IA-UNESP.Tese de Livre-Docência, ainda inédita.
MELO NETO, João Cabral (1976). Museu de Tudo. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio.
POUND, Ezra (1970). ABC da Literatura. Trad. de Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix-CEC.
RISÉRIO, Antonio (1998). Ensaio sobre o texto poético em contexto digital. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado-COPENE. (Col. Casa de Palvras).
NOIGANDRES 4. São Paulo, Ed. Dos Autores, 1958